quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

18 - SEJA O MELHOR

Acredito que sera mais produtivo, criativo, concentrado, generoso e resistente quando descobrir como exercitar as suas qualidades a maior parte do tempo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O VERDADEIRO REGIME ANTI-CANCRO

Top ten das coisas boas:

1. Sumo de roma
2. Curcuma
3. Cha verde
4. Vinho tinto
5. Selenio
6. Tomate
7. Fibras alimentares
8. Alho e cebola
9. Quercitina (encontra-se no cacau e na pimenta, por ex.).
10.Exercicio fisico

Top ten das coisa mas:

(A principal causa de cancro e o TABACO - 30% dos cancros em França. Mas merece tanto destaque que nem se inclui na lista!)

1. Excesso de espadarte, atum vermelho, solha, salmao.
2. Excesso de lacticinios, quer se trate de leite ou de produtos fermentados (queijos, iogurtes) no homem apos os 50 anos. Mas sao excelentes para crianças e mulheres.
3. Betacaroteno (principalmente para quem fuma ou ja fumou).
4. Vitamina E.
5. Excesso de bebidas alcoolicas de grau elevado.
6. Excesso de peso.
7. O arsenico na agua que bebemos, os nitritos e nitratos na agua e em certos produtos de charcutaria industrial.
8. O sangue contido na carne.
9. As materias gordas ricas em acidos gordos polinsaturados.
10.Os grelhados e a cozinha no wook.

domingo, 16 de dezembro de 2012

O FIM DO EURO EM PORTUGAL?

A saida do euro tera como consequencias imediatas uma forte desvalorizaçao, o disparar da inflaçao e uma reduçao dos salarios reais. Se esta queda dos salarios reais nao for contrariada, poderemos assistir a uma diminuiçao do desemprego se, a par disso, forem tomadas outras medidas de atracçao do investimento estrangeiro.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O GEBO E A SOMBRA - O REI IMAGINARIO - O DOIDO E A MORTE

"Houve entao uma hora em que eu mesmo me ri de mim, tao alto! tao alto! que todos os ladroes se calaram...(Respira fundo) Uma hora em que entendi tudo e todas as vozes dentro em mim se sumiram com medo a minha propria voz. (Mudando de tom) A gente so se nao arrepende do mal que faz neste mundo."

" Agora e que eu devia ser juiz, porque aprendi e sei que atras de cada ser ha outro ser e de cada homem que conhecemos outro homem ignorado, agora que nao passo do Teles..."

"Nao diga mal dos doidos. Todos os homens que fizeram alguma coisa no mundo eram doidos."

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

MEMORIAL DO CONVENTO

Entao Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sois, mas nao subiu para as estrelas, se a terra pertencia e a Blimunda.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

CONDESSA D'EDLA

A rapacidade, exagerada até aos últimos extremos, levou-a a ratinhar até as gratificações e pensões dos mais antigos e leais servidores de el-rei D.Fernando; e o rancor pelo malogro das suas ambições desnorteadas levou-a a tentar um desforço com a mão do finado.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

WE CAN DO

Some people consider me a genius, but I know that I am not. My accomplishments are due to thoughtful planning, strict commitment and discipline, and parenthal dedication.

domingo, 15 de julho de 2012

O FENÓMENO DE FÁTIMA

O milagre do sol em Fátima passou a ser classificado como um dos «mais óbvios e colossais milagres da História», a par da separação das águas no Mar Vermelho, descrita no Livro do Êxodo. Deve ter sido uma experiência maravilhosa para os que o viram. Ironicamente, entre aqueles que na multidão não viram o sol mexer-se estavam nada mais nada menos do que Lúcia, Francisco e Jacinta.

sábado, 30 de junho de 2012

A DESILUSÃO DE DEUS

"A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil."

Séneca

domingo, 17 de junho de 2012

LISBOA

«É nos muitos recantos escondidos de Lisboa que reside o verdadeiro encanto da cidade.»

sábado, 2 de junho de 2012

OTELO - O Revolucionário

«Quando o país morria numa guerra injusta e perdida, e definhava esmagado por uma ditadura de meio século, ele planeou e executou uma revolução. Muitos clamaram pelo fim do regime, muitos lutaram. Mas no momento de agir, foi ele, homem organizado , que fez o que tinha de ser feito.»

domingo, 20 de maio de 2012

O PETER PAN NÃO EXISTE

A religião instituiu que «se Deus quiser» é um desígnio positivo, que tudo irá correr bem e terá um fim feliz! O que não se entende...pois estando Deus em todo o lado...acaba sempre por se ausentar do sítio da desgraça precisamente na altura em que fazia mais falta!...

terça-feira, 17 de abril de 2012

O HOMEM CRIOU DEUS

Como alguém disse, Deus não fala. E os religiosos encontraram uma forma de delírio colectivo falando em seu nome!

domingo, 1 de abril de 2012

DR. JOSÉ GASPAR RODRÍGUEZ DE FRANCIA - Ideólogo de la Independencia del Paraguay

"le había demostrado ao pueblo cómo podía conquistar su independencia y, enseñandole el difícil arte de la disciplina, le había otorgado los medios para conservarla"

quinta-feira, 22 de março de 2012

COMO TER UM CORAÇÃO SAUDÁVEL (2ªleitura)

«Sem dúvida que a actividade física é um componente fundamental de uma existência saudável. Por isso, deve fazer parte da nossa vida tanto como tomar uma refeição ou lavar os dentes».

sábado, 17 de março de 2012

HONRAS FUNEBRES DEL DICTADOR FRANCIA

«Salomón sólo fue rey,

Luego es pequeño su honor,

Que ha tenido más virtud

Nuestro señor dictador.»

domingo, 11 de março de 2012

Yo el Supremo (Augusto Roa Bastos)

Terminei de ler hoje esta suprema obra literária.

«Yo el Supremo Dictador de la República

Ordeno que al acaecer mi muerte mi cadáver sea decapitado; la cabeza puesta en una pica por tres dias en la Plaza de la República donde se convocará al pueblo al son de las campanas echadas a ruelo.
Todos mis servidores civiles y militares sufrirán pena de horca. Sus cadáveres serán enterrados en potreros de extramuros sin cruz ni marca que memore sus nombres.
Al término de dicho plazo, mando que mis restos sean quemados y las cenizas arrojadas al río...»

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

OS PESCADORES (Raul Brandão)

«Quando regresso do mar, venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa».

O fascínio de Raul Brandão pela luz e pelas cores!

Esta maneira de entender o mundo dos pescadores de há 100 anos, fez-me sonhar com o meu avô Manuel, pescador algarvio, que veio para Lisboa cerca de 1920. Que vida aquela! Que dureza e que comunhão entre essas pessoas simples!

«E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho - a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte. O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo».

As reminiscências da infância ligada a uma família de pescadores.

«Só tendo a morte quase certa é que o Poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. Desde que se mete à terra, o Poveiro modifica-se: perde em agilidade e equilíbrio, hesita, balouça-se, não sabe onde há-de pôr os pés».

Este estilo de vida tão primitivo, tão ligado à essência das coisas, tão precário, tão arriscado, que torna as pessoas ultra-supersticiosas.

«Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta».

Às vezes ganhava-se mais dinheiro, mas sempre o risco de se ficar sem nada, incluindo a própria vida. Um espírito tremendo de solidariedade, comunista, sem a conotação política de agora.

«Se eu fosse pintor , passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar».

Palheiros de Mira: «Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu...(...) Quando chegam a velhos e não podem trabalhar, como não há um simulacro de cooperativa e a lei do seguro os não abrange, lá se socorrem uns aos outros como podem. A miséria é quase desconhecida neste pequeno povo de mais de duzentos fogos e de cerca de mil habitantes».

«Corre-se ao salva-vidas. Vida ou morte? Todas ajoelham com os braços atirados para o céu - e a Rata continua impassível como o destino; seu olhos fixos não se despegam daquele espectáculo tremendo».

As Berlengas (1919): «De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa! (...) - Que beleza, han?!... (...) - Que beleza o quê? (...) isto?! - e ri-se. - O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! (...) Eu não sou um faroleiro - sou um náufrago».



"Os Pescadores", 1923, um retrato poético e sensível dos pescadores e da costa portuguesa, de Caminha a Sagres.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

EU O SUPREMO

SUPREMO DITADOR – No romance, Eu o Supremo, Augusto Roa Bastos faz uma autobiografia alheia, ao escrever as memórias de José Gaspar Rodríguez de Francia, emblemático ditador paraguaio. janeiro 27, 2011 Posted by eliesercesar in Resenhas. trackback

Roa Bastos: "Se queremos falar de alguém, temos que ser esse alguém".
Esdrúxula combinação de ditador, tirano e déspota esclarecido, José Gaspar Rodríguez de Francia governou o Paraguai com mão-de-ferro, durante 27 anos, até a sua morte, em 20 de setembro de 1840. Em seu governo o país, a primeira República da América do Sul, experimentou um crescimento econômico invejável. Tributário da Revolução Francesa, El Supremo, Ditador Perpétuo, como se intitulava, Rodríguez de Francia, o Dr. Francia, acabou com os privilégios da aristocracia, distribuiu terras para os camponeses, incentivou a agricultura e a industrialização, tornou obrigatório o ensino médio, conseguindo acabar com o analfabetismo em seus país, – isso no começo do Século 19 – perseguiu os jesuítas e proibiu a Inquisição.
Avançadas no tempo, suas reformas econômicas e administrativas transformaram o Paraguai na grande potência latino-americana de sua época, resguardada por um poderoso exército. Ao contrário do Brasil, da Argentina e do Uruguai, subservientes aos interesses da Inglaterra (a maior potência mundial do período), desafiou as nações poderosas, chegando ao ponto de proibir as imigrações. Por tal ousadia, pagou deliberadamente o preço do isolacionismo. Quase três décadas após a morte do ditador, o país seria literalmente arrasado pela Tríplice Aliança, na guerra genocida que uniu brasileiros, argentinos e uruguaios contra os paraguaios.
José Gaspar Rodríguez de Francia é o personagem principal de um dos maiores romances da América Latina, Eu o Supremo, do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). Emerge das páginas do romance um homem que, como um Moisés na Terra Prometida do Novo Mundo,chamou para si próprio, num impulso quase místico e megalômano, a responsabilidade de conduzir seu povo para um futuro de glória, redenção, independência e orgulho pátrio, mesmo ao custo de passar as armas os opositores do regime.
Filho de um brasileiro, Dr. Francia formou-se em filosofia e teologia e ganhou respeito como intelectual. Foi também um político ilustrado, leitor de Cícero, Dante, Voltaire, Rousseau, Montesquieu e, claro, Maquiavel. É irretocável, seu perfil, escrito em primeiro pessoa por Roa Bastos, como se extraído das próprias memórias do Ditador Perpétuo, cargo que induziu o Congresso a outorgá-lo em 1814 e do qual, plenipotenciário, desfrutou até a morte. O romance foi definido pelo escritor Antonio Callado como “uma autobiografia escrita por outra pessoa” e “provavelmente o melhor livro da literatura paraguaia”.
O talhe de estadista dos trópicos de Rodríguez de Francia impressionou o inglês Thomas Carlyle que, em 1844, quatro anos após a morte do ditador, escreveu o ensaio “Dr. Francia” em que não esconde a admiração por um personagem que enfrentou, com coragem e altivez, o seu império colonialista da Inglaterra. A mesma admiração que, muitos anos depois, inspirou o brasileiro Callado a escrever (na orelha da edição brasileira de Eu o Supremo – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. Trad. Galeno de Freitas): “Francia, fundador do Paraguai, é realmente uma figura de estadista de molde tão incomum que, se imaginássemos outros Francias em mais três ou quatro de ‘nuestros países’, poderíamos imaginar uma América Latina bem diferente do que é, bem mais forte a seu modo, bem mais inventiva e original. Francia não queria que o Paraguai se parecesse com a Espanha, ou com a França, ou com a Inglaterra. Ele queria criar uma outra espécie de civilização nestas plagas. O Paraguai dos seus sonhos – e das suas realizações – era auto-suficiente, desconfiado em relação às grandes potências, altivo, acreditando firmemente na sua capacidade de criar algo novo”. É inevitável o arroubo da fácil comparação: não seria o venezuelano Hugo Chavez, com marketing bolivariano, um êmulo atual de El Supremo?
Apresentado o personagem histórico, falemos do romance que o retrata como um velho espelho que fragmenta mas não falsifica a imagem.
HOMEM QUE FEZ A HISTÓRIA

Dr. Francia: "Eu não escrevo história. Faço".
Roa Bastos se introjeta tanto El Supremo que, ao dar voz ao ditador, parece que o próprio Dr. Francia está ditando suas memórias, tamanha força do personagem e a verossimilhança do relato. Em um trecho do romance, o escritor revela o segredo da entranhada caracterização psicológica. “Se a todo custo se quer falar de alguém, não apenas temos de nos por sem eu lugar: temos de ser esse alguém”. Ou seja, não basta apenas pensar e agir como a pessoa que se quer retratar. É preciso se colocar na pele dela, e, ainda mais, achar que é ela, numa transmigração – e essa é a vantagem da arte – que oferece o caminho de volta. Só assim, completa Roa Bastos, “unicamente o semelhante pode escrever sobre o semelhante”.
Culto, o José Gaspar Rodríguez de França do escritor paraguaio medita também sobre o ofício do escritor. “Escrever não significa converter o real em palavras, mas sim fazer com que a palavra seja real. O irreal só está no mal uso da palavra no mal da escrita”. Numa sentença lapidar, que tanto serve para escritores e poetas afoitos, para os quais qualquer arroubo confessional e qualquer bobagezinha sentimental, se convertem em obra de arte, Roa Bastos adverte, pela voz do ditador: “as frases idiotas não voltam atrás”.
Eu o Supremo é também pródigo em frases lapidares. Vejamos algumas delas: “O homem de boa memória não lembra nada porque não esquece nada”; “o que é a fé senão crer em coisas sem nenhuma verossimilitude; ver por espelhos no escuro”; “o dicionário é um ossário de palavras vazias”; “que água de rio tem antiguidade?”; “sempre há tempo para ter mais tempo”; “quem pretende relatar sua vida perde-se no imediato”; “o poder Absoluto é feito de pequenos poderes”; “quando é preciso raciocinar, o povo não sabe senão andar às tontas na obscuridade”; “a idiotice não tem limites, sobretudo quando anda aos tropeções pelos estreitos corredores da mente humana”, e “quem guarda sua boca, guarda sua alma”. Podíamos ainda citar “quando a chuva é forte, os homens se enlameiam e os porcos ficam limpos”, ou “criei fama de mentiroso para dizer impunemente a verdade”, mas, fiquemos por aqui. Que o leitor, curioso, confira outras máximas de Roa de Francia.
Dr. Francia galga o poder em um período de desordem, em que “um governo sucedia a outro governo em redemoinho da anarquia; o da manhã não sabia se ia durar até a noite”. Por isso, era inflexível na manutenção da ordem. Diz o Ditador Perpétuo: “Nem a liberdade nem coisa alguma pode subsistir sem ordem, sem regras, sem uma unidade, concertadas no núcleo do supremo interesse do Estado, da Nação, da República, pois até as criaturas inanimadas nos predicam a exatitude. De outro modo, a liberdade pela qual temos feito, estamos fazendo e continuaremos a fazer os maiores sacrifícios , irá degringolar em desenfreada licenciosidade, que a tudo reduziria em confusão num campo de discórdias, de balbúrdias”.
Inexorável em seu rigor e implacável em sua bondade, como dizia de si mesmo, El Supremo manda fuzilar um grupo de conspiradores que tentaram derrubar-lhe do poder, dentre eles Fulgencio Yegros, com quem dividira o governo após a independência do Paraguai do domínio espanhol.
Embora republicano, José Gaspar governou como um Rei Sol dos Trópicos. Sempre teve plena convicção do alcance de seu poder e da dimensão pantagruélica de sua fome poder. Sabia que um simples palavra sua teria ampla audiência em todo o país e que um ditador fala até quando se cala. “Se o homem nunca fala consigo mesmo, o Supremo Ditador fala sempre aos demais. Dirige sua voz diante de si para ser ouvido, escutado, obedecido. Embora pareça calado, silencioso, mudo, seu silêncio é de mando”, observa o mandatário pela pena de Roa Bastos.
Ateólogo, como se professa, Dr. Francia, em seu ufanismo patriótico, chega a “nacionalizar” a Igreja Católica Apostólica Romano e transforma a catequese em Catecismo Pátrio. Se o Papa se dignasse a visitar o Paraguai, teria oferecido ao Sumo Pontífice o cargo de capelão. Fanfarão, manda um recado para os ingleses: “Diga-lhes por ordem minha que meu enferrujado urinol vale mais, muitíssimo mais, do que a suja coroa, e que não estou disposto a trocá-lo por ela”.
Homem de ação, El Supremo resume toda a sua ambição numa frase, digna de um César que atravessou os conflagrados campos guaranis: “Eu não escrevo história. Faço”. Roa Bastos escreveu, uma história ficcionalizada pelo gênio criador.

AUGUSTO ROA BASTOS


REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 310 ARB perspectivas Roa Bastos: retrato em WLADIMIR KRYSINSKI Tradução de Roberto Shiashiri e nota de Jerusa Pires Ferreira Augusto WLADIMIR KRYSINSKI é professor de Literatura Comparada, Teoria Literária e Literaturas Eslavas na Universidade de Montreal (Canadá). Entre suas publicações recentes, os livros La Novela en sus Modernidades: a Favor y en contra Bajtin (Vervuert) e Il Romanzo e la Modernità (Armando). REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 311 R NOTA: Faleceu este ano, num triste abril, o escritor paraguaio Augusto Roa Bastos, patrimônio ativo do continente sul-americano e da literatura mundial. Há muitos anos fortemente ligado ao Brasil, recebeu o importante prêmio da literatura latino-americana, oferecido pelo Memorial da América Latina. Em várias entrevistas declarou o seu desejo de viver em nosso país. No entanto, retirou-se de Toulouse (França), onde viveu e atuou, retor nando ao Paraguai, onde fi caria até seus últimos dias. Romancista, crítico, poeta e mestre do ensaio, muito tem a nos ensinar do ofício, da arte, da ética. (JPF) Roa Bastos soube estabelecer um equilí brio entre a criação literária e as provações de sua existência, sempre até as últimas fronteiras do humano. Soube traduzir a crueldade da história e da condição humana em uma forma literária que revolucionou o romance histórico e que colocou sua obra no topo da arte da narração. Sem dúvida nenhuma, Augusto Roa Bastos pertence à família dos grandes narradores, estando ao lado dos maiores do século XIX (Bal zac, Flaubert, Stendhal, Dickens, Fontane, Leskov, Tolstoi, Dostoievski…) e dos gran des escritores como Conrad, Joyce, Virginia Woolf, Thomas Mann, Faulkner, Cortázar, Gombrowicz, Beckett, Garcia Márquez, Claude Simon e Gunther Grass. Roa Bastos entendeu que, mesmo sem ser didática, a mensagem romanesca deve revelar a complexidade dos fatos narrados. Dialogando com a história, de seu país e do mundo, Roa Bastos revoluciona o romance. Sua obra-prima, Eu, o Supremo, é uma análise espectral dos acontecimentos que marcaram a vida da sociedade paraguaia na primeira metade do século XIX sob o reinado do ditador José Gaspar Rodriguez de Francia. Mas em Roa Bastos, o requinte da arte nar rativa e a consciência profunda da história do Paraguai e da América Latina transfor mam o romance histórico em uma narração fragmentada e perspectivista. Dessa forma, denunciando a ditadura, esse fascinante e ri camente documentado romance oferece uma refl exão sobre o poder e um apelo à dúvida quase fi losófi ca da imitação romanesca da história. Esta dúvida consiste em relativizar as ambições do romance histórico linear e fi el aos fatos. Roa Bastos coloca em questão um gênero romanesco que pretende contar a história de boa-fé e imitar os fatos. Publicado em 1974, Eu, o Supremo, é a segunda parte de uma trilogia que tem como tema central o que Roa Bastos chama de o "monoteísmo do poder". Filho do Homem (1960, 1984) e O Fiscal (1993) são os outros dois painéis da trilogia. A partir de tramas narrativas e históricas locais, o romancista paraguaio construiu uma obra universal capaz de tocar a consciência e a inteligência do leitor onde quer que esteja. VIDA E FATOS DE CRIAÇÃO "A realidade do mundo, de um ser humano é necessariamente fragmentária" (A. Roa Bastos, O Fiscal). Escritor paraguaio, nascido em Assun ção em 13 de junho de 1917, Augusto Roa Bastos foi morar na sua cidade natal depois de vários anos de exílio na Argentina, na Espanha e na França. Sua obra é composta por numerosos romances e coletâneas de novelas e também poesia e ensaios. Ela enraíza-se na história do Paraguai num contexto latino-americano e na vida engajada desse escritor, marcada por inúmeras provações que constantemente colocaram em perigo sua existência. Aos 14 anos de idade, Augusto Roa Bas tos participa da Guerra do Chaco (1932-35), declarada pela Bolívia contra o Paraguai. Sempre defendeu com muita valentia o direito à liberdade de expressão de seus conterrâneos. Lutou pela democracia no Paraguai e na América Latina. Em 1982 foi expulso do Paraguai a mando do ditador Stroessner. 312
REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005
MENSAGEIRO DO HUMANO E MEDIADOR DA SABEDORIA
"Wer den Dichter will verstehen
Muss in Dichters Lande gehen"
"Aquele que quiser entender o poeta
deve ir à terra do poeta" (Goethe).
Publicado no mês de março de 2002, O Trovão entre as Páginas. Diálogos entre Augusto Roa Bastos e Alejandro Maciel (El Trueno entre las Páginas. Diálogos entre Augusto Roa Bastos y Alejandro Maciel) é um precioso documento por várias razões. Há aí uma conversa entre dois interlocutores excepcionais: Roa Bastos, criador de uma obra que é um marco na literatura paraguaia, e Alejandro Maciel, amigo e secretário do escritor, conhecedor entusiasta de sua obra. Maciel é psiquiatra e de vez em quando lança um olhar médico e (psico)analítico sobre o mundo e a obra de seu interlocutor, quando então se diverte em provocar seu amigo. À medida que a conversa progride, o leitor é levado a descobrir a vida de Roa Bastos. Esse livro é um precioso documento. A conversa entre Bastos e Maciel, que prossegue mudando de assunto a cada instante, atravessa épocas, lugares e temas diferentes. Toca em diversas questões sobre o mundo e a história, sobre a América Latina, em particular o Paraguai, sobre a vida e a literatura, sobre as épocas de tormento que o escritor atravessou, sobre a Europa e sua cultura, sobre a mundialização e a literatura universal, sobre o romance e a poesia, sobre o Século de Ouro espanhol e sobre um sem-fim de acontecimentos. Essas entrevistas nos concernem. Eles introduzem no universo singular de um escritor – que é uma das grandes testemunhas e criadores do século XX –, e somente a ele, um mundo habitado por mil narrativas.
Sua vida foi um aprendizado da dor, mas também uma lição de apego a seu país natal. Não é um patriotismo forçado. O que Augusto Roa Bastos nos comunica em matéria de pátrias reais ou imaginárias é o seguinte: não podemos jamais negociar a escolha do nosso lugar de nascimento. Trazemos conosco a fatalidade do lugar de onde viemos ao mundo. Nossa pátria nos cola na pele. Ela nos acompanha onde quer que estejamos. É isso que nos ensina esse livro.
Augusto Roa Bastos viveu mudando de espaços, atravessando corajosamente o tempo de sua infância, de sua adolescência, da idade adulta e da velhice. Criou para si uma filosofia da resistência às forças das ditaduras e dos totalitarismos. Praticou e cultivou a compreensão do outro. Se esse livro nos conta dialogicamente a história da vida de Roa Bastos, nos ensina também que, em princípio, nos é permitido escolher o lugar de nossa ou de nossas residências. Mesmo em circunstâncias críticas e de constrangimento imediato e excessivo, quando de um golpe de Estado ou de um golpe militar que leva ao poder uma nova equipe de "governantes", pode-se fugir da pátria ingrata e se estabelecer num outro país consciente e livremente escolhido. Mas, infelizmente, mesmo essa convicção de que a escolha do país do exílio nos é livremente concedida se relativiza e mostra o potencial de toda espécie de sujeição. Lembremo-nos de Trótski e suas errâncias antes de se estabelecer no México, o lugar definitivo de sua vida e o lugar escolhido por Stálin para seu assassinato.
Sabe-se muito bem hoje que a compreensão da história do século XX passa pela explicação da topologia dos totalitarismos. Basta dar um giro de nosso olhar sobre o mapa do mundo, do continente europeu ao continente latino-americano e asiático, para constatar onde e de que maneira os totalitarismos plantaram suas bandeiras. O Paraguai, infelizmente, é um dos países vergonhosamente ilustrados.
É nesse contexto histórico, planetário e político que se inscreve a vida de Augusto Roa Bastos. Os constrangimentos históricos, políticos, econômicos, sociais e culturais que moldaram sua personalidade o levaram ao exílio. O mais longo exílio
313
REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005
para Roa Bastos foi em terra argentina. Felizmente o escritor não precisou mudar de idioma. Seus numerosos amigos o acolheram muito bem. Mesmo que sua vida de exilado não tenha sido a das mais fáceis, como a vida dos argentinos sob a ditadura, Augusto Roa Bastos fala da Argentina com apego e com amor.
Este livro, Trovão entre as Páginas, possui um estatuto polivalente. É um documento histórico, uma história pessoal e uma aventura intelectual e criadora. Nele, Roa Bastos conta sua vida longa, intensa, política e humanamente engajada. O leitor descobre a personalidade atraente de um escritor que de maneira exemplar carrega em si a fatalidade do lugar de seu nascimento. Augusto Roa Bastos fala de sua vida rica de fatos e gestos políticos, intelectuais e criadores. Fala de sua família e de seus exílios sem que seu discurso torne-se confessional ou autobiográfico. Tampouco é um romanesco familiar. É um discurso meio autonarrativo, meio auto-irônico.
A obra admirável e fascinante, poderosa e fiel à sua origem, ao Paraguai, encontra nesse livro seu melhor comentador.
Augusto Roa Bastos, "campesino" e orgulhoso disso, intelectual requintado e judiciosamente crítico ou admirador dos outros, grande erudito, analista notável do texto literário (leiam suas análises dos sonetos de Quevedo, Gongora ou Lope de Vega), conhecedor incomparável da literatura universal, torna-se pelas suas palavras e por suas respostas um mensageiro do humano e um mediador da sabedoria.
A ERRÂNCIA DOS BLOCOS
HUMANOS
"Não era uma vida, era um caos" (H. Broch, O Tentador).
A melhor via para entrar in medias res seria provavelmente a analogia que a escrita de Roa Bastos faz chegar ao espírito entre a tonalidade de seus escritos, seu pano de fundo, sombrios e noturnos, e a pintura de Goya. Certamente, também em Roa Bastos (em Eu, o Supremo, em A Vigília do Almirante ou em O Fiscal) existem cenas e perspectivas narrativas que podem evocar essas pinturas de Goya, que representam de maneira realista cenas reais, a corte e as famílias de tais ou tais reis, de tais ou tais ditadores. Contudo, o que parece se constituir numa analogia ontológica e fundadora de uma visão comum do mundo é a pintura de Goya em que reina a noite. É sobre seu fundo impenetrável que aparecem figuras humanas, olhares que se lançam tristes e rancorosos em direção a um espaço desconhecido, espaço de um teatro repetitivo do mundo cuja focalização central é a morte ou, o que dá no mesmo, a vida cruelmente distribuída entre humanos sem esperança. Essa vida é uma cerimônia sombria de sua própria reprodução.
"O Baldio" (El Baldío) expressa com uma maestria paradigmática essa escrita da sombra. El Baldío é a "terra gasta", terreno vago, o território do lixo, espaço do excremento. É um pequeno texto reconhecido como uma "parábola brilhante e circular da vida indestrutível". Isso se passa numa imensa noite em que tudo foi eclipsado, exceto os humanos que, embora tivessem sido comidos pela obscuridade ("comidos por la obscuridad"), aí gesticulam, se mexem, se deslocam sem uma finalidade definida. Os humanos vivem a despeito de uma pressão letal do meio ambiente. Vivem, pois a vida é indestrutível. Seus rostos são dificilmente decifráveis. Suas formas se deixam adivinhar. São silhuetas vagamente humanas, os dois corpos absorvidos por suas próprias sombras. O odor pútrido, a terra é um depósito de lixo, ela está recoberta de detritos e de objetos rejeitados de outros lugares e ali depositados. Uma criança, uma pequena forma humana se debate entre as folhas de um jornal. Um homem (um "filho do homem") a toma em seus braços… "Seu gesto inábil e descuidado, o gesto de alguém que não sabe o que faz, mas que não pode deixar de fazê-lo." Um adulto sem nome salva uma criança sem nome.REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 314
O estatuto do humano em Roa Bastos se funde ao reconhecimento do fatalismo de estar aí mesmo. Esse estatuto está inseparavelmente ligado à topografia adversa do espaço que o humano percorre e onde organiza sua morada incerta, provisória, potencial, um lugar de exílio e de descentramento. É uma máquina alienante e matéria incessantemente adversa e inóspita. Nos breves relatos que se constituem em espécies de desfiles permanentes de humanos anônimos, a voz narrativa transmite, por uma grande economia da matéria narrada, aquilo que é essencial. O mundo visualizado de maneira aleatória pelas figuras anônimas ou mal nomeadas. Isso se passa em uma atmosfera bárbara. A prática da barbárie, própria da América Latina, é reiterativa. Ela devora o sonho de uma liberdade libertadora. A massa de bárbaros conta sua inferioridade. Chega-se, então, a uma relativização da própria idéia de barbárie. Esta se deixa integrar ao ethos social latino-americano e inverte os conteúdos pejorativos da oposição interpolar civilização/barbárie que, de disjuntiva, se transforma em conjuntiva.
ÀS TOMADAS DA BARBÁRIE
NO DESTINO PARAGUAIO:
A POLISSEMIA TRANSGRESSIVA DA FIGURA DE JOSÉ GASPAR RODRIGUEZ DE FRANCIA
O poema "Esperando os Bárbaros" de Constantin Kavafis, um dos textos mais estranhos da poesia moderna, trata-se de um estado e de uma sociedade que esperam os bárbaros, mas eles não chegam. É uma pena, diz o poeta, os "bárbaros teriam sido uma solução".
Os bárbaros já estão na América Latina. Deve-se tomá-los por uma componente inegável da vida que matou todas as alteridades. A oposição entre barbárie e civilização atravessa histórica, simbólica e semanticamente todos os pensamentos críticos e as atividades intelectuais e artísticas dos latino-americanos. E é também nessa oposição, negativamente reguladora da história da América Latina, que se inscreve o empreendimento criador de Roas Bastos, de que Eu, o Supremo é inegavelmente o ápice. Vê-se aí como o esforço criativo do escritor toca, antes de tudo, na recriação da figura histórica de José Gaspar Rodriguez de Francia. Embora a oposição entre a civilização e a barbárie traga uma interpolaridade semântica positiva vs. negativa, podemos constatar que no romance de Roa Bastos essa interpolaridade cede lugar a uma opacidade semântica, dá lugar a uma oscilação do sentido e faz do ditador paraguaio um agente romanesco e histórico polivalente, às vezes humano e inumano, civilizado e bárbaro, cruel e patético, ditador e democrata.
E como observa, com razão, Sharon Keefe Ugalde: "No romance, o representante da civilização e da barbárie é a mesma pessoa, José Gaspar Rodriguez de Francia. A criação de uma personagem que una os dois componentes divergentes desemboca num novo modelo de indicadores. À oposição polar substitui-se um mosaico de qualidades admiráveis e detestáveis, uma multiplicidade de dualidades" (1).
Por essa inversão ou mesmo por essa simetrização e multiplicação de conteúdos, o procedimento romanesco de Roa Bastos opera a restituição de José Gaspar Rodriguez de Francia a uma verdade histórica. Diplomata e um forte negociador que trabalhou pela independência do Paraguai e pela proclamação da República paraguaia, dr. Francia "reside" também na memória coletiva dos paraguaios como "ditador perpétuo" cujas bestialidade e crueldade são iguais à sua cultura política e às suas preferências de leitura, próximas de Jean-Jacques Rousseau.
Os historiadores notam com certo interesse o que se produziu após a morte do ditador. Eis os fatos que refletem e corroboram o sentimento de ambivalência dos paraguaios em relação ao ditador:
1 S. K. Ugalde, "La Reestructuración de la Dictomia Latinoamericana Civilización-Barbarie em las Obras de Roa Bastos", in Las Voces del Karai: Estudios sobre Roa Bastos, ed. Fernando Burgos, Madrid, Edelsa, 1988, p.212.REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 315
"O povo se dividiu em dois grupos: uns lamentavam seu desaparecimento, os outros foram às ruas para execrar sua memória. Os funerais foram solenes, mas nenhum padre paraguaio quis pronunciar a oração fúnebre. Foi o padre Manuel Antonio Perez de Córdoba (Argentina) que o fez. Depois, as mãos vingadoras destruíram o túmulo que havia sido erguido para conservar seus restos e que foram em seguida jogados no rio Paraguai" (2).
A história e a personalidade de José Gaspar Rodriguez de Francia se inserem numa dialética romanesca que Roa Bastos parece construir e propulsar entre as três imagens da história e três discursos sobre a história tal como Reinhart Koselleck os entende e os problematiza: "uma história que registra, uma história que desenvolve e uma história que reescreve" (3)
O ROMANCE DE UM SABER COMPLEXO E A FLUTUAÇÃO DO INDIZÍVEL
A complexidade do romance de Roa Bastos aflora de uma vontade de conciliar uma nova redação da história com seu desenvolvimento. José Gaspar Rodriguez de Francia é um alvo movente do autor que ao longo da história emprega os diferentes meios de expressão colocados a serviço de um saber que só pode ser complexo. Enumeremos sem ser exaustivos: o compilador que relativiza a posição autoral do autor, a construção do arquivista, um alter ego do compilador, os anacronismos, a veemência e o paroxismo dos registros, o metarromanesco produzido como instrumento para pensar o romanesco em suas imperfeições convencionais. Desde então o modelo romanesco produzido por Roa Bastos funde-se em uma síntese dos discursos que o precederam na ordem evolutiva do gênero. O escritor paraguaio parece retomar por sua conta o projeto do romance "poli-histótrico" e "gnosiológico" de Broch
2 Efraim Cardozo, Breve Historia del Paraguay.
3 Ver M. Werner, "Préface", in R. Koselleck, L’Expérience de l’Histoire, Paris, Gallimard, Seuil, Coll. "Hautes Études", 1997, pp.12-13. REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 316
diante da apresentação enunciativa de um polivalência remete a um mosaico de signos em que também se aloja o "compilador" ("Vielschichtigkeit" – poliestratificação) e o postulado bakhtiniano de um dialogismo como princípio criador. Contudo, Roa Bastos situa-se numa multivocalidade dos agentes romanescos, enunciando seus pontos de vista sobre uma polifonia de vozes dos personagens-ideólogos, no sentido que Bakhtin dá a esse termo na sua teorização dos romances de Dostoievski. E o narrador, se houver um narrador neste Eu, o Supremo, não é "um evocador murmurante do pretérito" segundo a formulação dada por Thomas Mann (A Montanha Mágica) do problema da criação romanesca. O pretérito apaga-se imediato da vida e de um real que por sua fazendo o papel de narrador.
Roa Bastos integra a seu modelo estruturas discursivas que se prestam a diferentes finalidades cognitivas e que se encontram na base de sua busca do saber. Essas finalidades são sobretudo o projeto de um romance anti-histórico, oposto à historiografia oficial. Roa Bastos multiplica os focos reflexivos do romance que sustentam o sistema de duplos (exemplo: ele/eu; Supremo pai/Supremo ditador; escrita/leitura; Supremo/Patinio; a palavra cadavérica/a palavra humana). É sobre esse sistema que repousa a perspectiva semântica do romance e o encaminhamento do sentido constantemente in statu nascendi.
O romance em "compilação" permanente evolui em nível de frases-rajadas, afirmações peremptórias e paradoxais, jogos provocantes. O texto do Supremo é subentendido por uma espécie de deslocamento do observável e do memorial. Eles se desagregam em fractais que não podem mais sustentar a narração na medida em que esse imenso projeto de história, posto e transposto racional e aleatoriamente, está em busca de uma catarse que não se encontra. De fato, se faz atravessado pelos eixos variáveis e instáveis de comunicação, cuja dinâmica desloca a cena narrativa para um lugar imaginário, para essa "outra cena" em que deveria se dar o parricídio final do qual o justiceiro e parte interessada seria o povo paraguaio.
Os desafios do romance parecem crescer à medida que o leitor vai abordando esse magma de fluxos indomáveis. Nessa ordem do discurso, nem ordenado, nem totalmente domado, surge a questão da independência do Paraguai que, graças a uma estratégia do Supremo, uma província argentina torna-se um estado independente, malgrado a avidez de seus vizinhos. Seria, então, antes de tudo, Eu, o Supremo, um romance histórico na sua pós-historicidade? De fato, o romance de Roa Bastos é levado por tantos fantasmas que suporta com força seu status dificilmente definível, suas fantasmagorias que podem ser comparadas a uma permanência da noite de Walpurgis.
Milagros Ezquerro constata com toda razão: "Yo el Supremo não é nem uma história romanceada, nem um romance histórico, mas uma dessacralização da História como Lugar-da-verdade" – Lieu-de-la-vérité (4).
Chega-se, então, à "Nota Final do Compilador" que afirma: "[…] o compilador […] declara, tomando os termos de um autor contemporâneo, que a história contida nessas Notas se reduz ao fato de que a história que aqui devia ser contada, não o foi".
Quem é esse autor contemporâneo? É Robert Musil, que dessa forma resume L’Homme sans Qualités (Aus einem Notiz-buch, 1932) no momento em que um jornalista lhe pergunta o que está escrevendo atualmente. Por que essa "história que devia aqui ser contada não o foi"? Musil dá uma resposta a essa pergunta no capítulo 122 de L’Homme sans Qualités. Para Ulrich, que num certo nível é o alter ego do autor, o mundo tornou-se complicado por demais e por isso mesmo "inenarrável". Os dois paradoxos, o de Musil e o de Roa Bastos, se tocam. Seus romances são magníficos fracassos narrativos. Suas histórias deixaram de se exprimir através de um relato linear, coerente, bem narrado. Se uma hermenêutica do incognoscível existisse no campo do romanesco moderno, ela nos diria por que nessas duas arquiteturas do romance, tão complexas e tão bem resolvidas, existe aquilo que Broch chama de "flutuação do indizível" (O Tentador).
4 M. Ezquerro,"Função Narrativa e Ideológica", in L’Idéologique dans lê Texte (Textes Hispaniques), Ed. Université de Toulouse, Le Mirail, 1978, p.104.

KARAÍ GUAZÚ

Francia, descrito por un historiador como "el frágil hombre vestido con chaqueta negra", admiró y emuló los elementos más radicales de la Revolución Francesa. Aunque él gustaba de reflejarse en el líder jacobino Maximiliano de Robespierre (1758-94), las políticas e ideales de Francia quizás se aproximaron más estrechamente a François-Noël Babeuf, un francés utópico quién quiso abolir la propiedad privada y comunalizar la tierra como preludio de una "república de iguales". Francia detestaba la cultura política del antiguo régimen y se consideraba un "revolucionario". En el apogeo de su dictadura, cuando Francia se paseaba en las calles de Asunción, los transeúntes se tenían que parar y le debían dar la espalda y quitarse el sombrero como medida de seguridad. De esa manera muy pocos contemporáneos lograron ver la cara del Supremo.En su esencia, el gobierno del Karaí Guazú ("Gran Señor" en guaraní como Francia era llamado por los pobres e indios) era una dictadura que destruyó sin piedad el poder de la elite y avasalló los intereses de los paraguayos comunes. Instaló un sistema de espionaje interior que destruyó la libre expresión. Se arrestaron personas sin cargo alguno y fueron desaparecidas sin más trámites. Había una tortura terrible llamada "Cámara de la Verdad" que se aplicaba a aquellos sospechosos de intrigar contra Francia. El Karaí Guazú enviaba a los prisioneros políticos, usualmente unos 400 por año, a un campamento de detención donde se les colocaban grilletes en calabozos, ni un mínimo de cuidado médico tuvieron e incluso el uso de medios sanitarios les era prohibido. En un acto indirecto de venganza contra la gente que lo había discriminado por su supuesta "sangre impura", Francia prohibió a los europeos de casarse con otros europeos obligando así a la elite escoger como cónyuges entre la población local. Francia selló herméticamente las fronteras de Paraguay al mundo externo y ejecutó a cualquiera que intentara abandonar el país, lo cual era raro en efecto. Los extranjeros que lograron entrar al Paraguay se resignaban a permanecer allí para el resto de sus vidas. El comercio paraguayo declinó hasta casi desaparecer. Ese declive arruinó a los exportadores de yerba mate y tabaco. Estas medidas afectaron duramente a los miembros de la antigua clase gobernante española y sus descendientes, a altos jerarcas de la Iglesia, oficiales militares, comerciantes y grandes hacendados.Cuatro años después un congreso paraguayo nombró como dictador a Francia de por vida con el título del "Supremo Dictador" en 1820. El sistema de seguridad de Francia descubrió y aplastó raudamente una facción de la elite que iba a asesinar al Supremo. Francia arrestó a casi 200 ciudadanos prominentes y ejecutó a la mayoría. Entre ellos estaban los próceres de la independencia Yegros quien fue ajusticiado el 17 de julio de 1820 y Pedro Juan Caballero quien prefirió suicidarse antes del tormento.En 1821 Francia sorprendió de vuelta y convocó a todos los aproximadamente 300 españoles residentes en Paraguay a la plaza mayor de Asunción donde los acusó de traición, los arrestó prontamente y los encarceló por 18 meses. Francia finalmente los soltó después de que aceptaron pagar una enorme indemnización colectiva de 150.000 pesos (cerca del 75% del presupuesto estatal anual), una cantidad tan grande que rompió su predominio en la economía paraguaya.Uno de los blancos especiales de Francia era la Iglesia Católica Romana. La Iglesia había proporcionado apoyo ideológico a la idea española sobre la doctrina del "derecho divino de reyes" y inculcando a las masas indias con un fatalismo resignado sobre su estado social y las perspectivas económicas. Francia prohibió ordenes religiosas, cerrando en el país los seminarios, secularizó a los monjes y sacerdotes obligándoles a que juraran lealtad al estado, abolió el fuero eclesiástico, confiscó toda propiedad de la Iglesia y subordinó las finanzas de la Iglesia bajo control estatal.La chusma se benefició directamente de la represión de las elites tradicionales y la expansión del estado. El estado se adjudicó las tierras de la elite y la iglesia y se las arrendó a los pobres. Aproximadamente unas 875 familias tuvieron por hogar a las tierras de seminarios clausurados. Las multas y confiscaciones decretadas contra los criollos ayudaron a reducir impuestos para los demás. Como resultado, los ataques de Francia contra la elite y sus políticas socialistas estatales provocaron muy poca resistencia popular. Las multas, expropiaciones y confiscaciones de propiedad de extranjeros permitieron que el estado se transforme en el hacendado más grande de la nación y pasó a operar 45 grandes granjas en el futuro. Administradas por personal del ejército, las granjas tuvieron tanto éxito que los animales que sobraron fueron regalados a los campesinos. En contraste con otros estados regionales, Paraguay era eficaz y honestamente administrado, estable y afianzado (cuyo ejército creció hasta tener 1.800 efectivos). El crimen continuó existiendo durante la dictadura pero trataron a los delincuentes con indulgencia. Por ejemplo, a los asesinos los ponían a trabajar en obras públicas. El asilo concedido a los refugiados políticos de otros países se volvió tradición paraguaya. Tal fue el caso de José Gervasio Artigas, máximo prócer uruguayo quien pese a sus encontronazos con Francia y su mala opinión sobre el paraguayo halló refugio seguro y decente en el Paraguay donde falleció en paz. Un hombre sumamente frugal y honrado, Francia dejó por lo menos el doble de su valor a la tesorería estatal que cuando subió al poder e incluía 36.500 pesos de su sueldo no gastado o acumulado en varios años.El estado además desarrolló industrias nativas de construcción naval y textil, impulsó un sector agrícola centralmente planeado y administrado que se diversificó aún más y más productivo que el anterior monocultivo de exportación. Estos desarrollos apoyaron a la política de Francia en la persecución de la autarquía económica.Pero el mayor logro de Francia, la preservación de la independencia paraguaya, fue resultado directo de una política no intervencionista en el extranjero. Deduciendo que la Argentina era una amenaza potencial para el Paraguay, cambió la política extranjera hacia el Brasil reconociéndole su independencia rápidamente en 1821. Esta actitud, sin embargo, no derivó en favores especiales para los brasileños de parte de Francia que también estaba bajo buenos pero limitados términos con Juan Manuel de Rosas, el dictador porteño. Francia previno una probable guerra con los vecinos argentinos al mismo tiempo cimentó su papel como dictador rechazando a los enemigos interiores de los porteños rosistas. A pesar de sus políticas aislacionistas, Francia dirigió un provechoso pero muy vigilado comercio de importación - exportación entre ambos países para obtener productos extranjeros, especialmente armas. Una política extranjera más activista que la implementada por Francia probablemente habría convertido al Paraguay en un trágico campo de batalla en medio del remolino de revoluciones y guerras que barrieron a la Argentina, al Uruguay y al Brasil durante las décadas que siguieron a la independencia. A Francia se le debe el hecho de madurar una genuina nacionalidad paraguaya en medio de un aislamiento logrando muy importantes diferencias étnica, lingüística y socialmente con sus vecinos utilizando fronteras naturales bastante difíciles de atravesar. El Supremo era muy inteligente al realizar suertes de alianzas con los indios salvajes y nómades que vivían en el Chaco en vez de tratar de exterminarlos como tal lo hacían los vecinos del Paraguay para tenerlos tranquilos en el país y a la vez usarlos como contención intimidatoria de intrusos no deseados. Todos estos desarrollos políticos y económicos pusieron al Paraguay en el camino de lograr el status de nación independiente gracias a la ciega obediencia popular a los deseos del Supremo. Él controló personalmente cada aspecto de vida pública paraguaya y ninguna decisión al nivel estatal, no importa cuán pequeña sea, podía hacerse sin su aprobación. Todos los logros de Paraguay durante este periodo incluyendo su existencia como nación eran casi atribuibles completamente a Francia. La gente común veía estos logros como regalos del Karaí Guazú pero con estos regalos vinieron aparejadas la pasividad política y la candidez pública entre la mayoría de los paraguayos.