quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AUGUSTO ROA BASTOS


REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 310 ARB perspectivas Roa Bastos: retrato em WLADIMIR KRYSINSKI Tradução de Roberto Shiashiri e nota de Jerusa Pires Ferreira Augusto WLADIMIR KRYSINSKI é professor de Literatura Comparada, Teoria Literária e Literaturas Eslavas na Universidade de Montreal (Canadá). Entre suas publicações recentes, os livros La Novela en sus Modernidades: a Favor y en contra Bajtin (Vervuert) e Il Romanzo e la Modernità (Armando). REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 311 R NOTA: Faleceu este ano, num triste abril, o escritor paraguaio Augusto Roa Bastos, patrimônio ativo do continente sul-americano e da literatura mundial. Há muitos anos fortemente ligado ao Brasil, recebeu o importante prêmio da literatura latino-americana, oferecido pelo Memorial da América Latina. Em várias entrevistas declarou o seu desejo de viver em nosso país. No entanto, retirou-se de Toulouse (França), onde viveu e atuou, retor nando ao Paraguai, onde fi caria até seus últimos dias. Romancista, crítico, poeta e mestre do ensaio, muito tem a nos ensinar do ofício, da arte, da ética. (JPF) Roa Bastos soube estabelecer um equilí brio entre a criação literária e as provações de sua existência, sempre até as últimas fronteiras do humano. Soube traduzir a crueldade da história e da condição humana em uma forma literária que revolucionou o romance histórico e que colocou sua obra no topo da arte da narração. Sem dúvida nenhuma, Augusto Roa Bastos pertence à família dos grandes narradores, estando ao lado dos maiores do século XIX (Bal zac, Flaubert, Stendhal, Dickens, Fontane, Leskov, Tolstoi, Dostoievski…) e dos gran des escritores como Conrad, Joyce, Virginia Woolf, Thomas Mann, Faulkner, Cortázar, Gombrowicz, Beckett, Garcia Márquez, Claude Simon e Gunther Grass. Roa Bastos entendeu que, mesmo sem ser didática, a mensagem romanesca deve revelar a complexidade dos fatos narrados. Dialogando com a história, de seu país e do mundo, Roa Bastos revoluciona o romance. Sua obra-prima, Eu, o Supremo, é uma análise espectral dos acontecimentos que marcaram a vida da sociedade paraguaia na primeira metade do século XIX sob o reinado do ditador José Gaspar Rodriguez de Francia. Mas em Roa Bastos, o requinte da arte nar rativa e a consciência profunda da história do Paraguai e da América Latina transfor mam o romance histórico em uma narração fragmentada e perspectivista. Dessa forma, denunciando a ditadura, esse fascinante e ri camente documentado romance oferece uma refl exão sobre o poder e um apelo à dúvida quase fi losófi ca da imitação romanesca da história. Esta dúvida consiste em relativizar as ambições do romance histórico linear e fi el aos fatos. Roa Bastos coloca em questão um gênero romanesco que pretende contar a história de boa-fé e imitar os fatos. Publicado em 1974, Eu, o Supremo, é a segunda parte de uma trilogia que tem como tema central o que Roa Bastos chama de o "monoteísmo do poder". Filho do Homem (1960, 1984) e O Fiscal (1993) são os outros dois painéis da trilogia. A partir de tramas narrativas e históricas locais, o romancista paraguaio construiu uma obra universal capaz de tocar a consciência e a inteligência do leitor onde quer que esteja. VIDA E FATOS DE CRIAÇÃO "A realidade do mundo, de um ser humano é necessariamente fragmentária" (A. Roa Bastos, O Fiscal). Escritor paraguaio, nascido em Assun ção em 13 de junho de 1917, Augusto Roa Bastos foi morar na sua cidade natal depois de vários anos de exílio na Argentina, na Espanha e na França. Sua obra é composta por numerosos romances e coletâneas de novelas e também poesia e ensaios. Ela enraíza-se na história do Paraguai num contexto latino-americano e na vida engajada desse escritor, marcada por inúmeras provações que constantemente colocaram em perigo sua existência. Aos 14 anos de idade, Augusto Roa Bas tos participa da Guerra do Chaco (1932-35), declarada pela Bolívia contra o Paraguai. Sempre defendeu com muita valentia o direito à liberdade de expressão de seus conterrâneos. Lutou pela democracia no Paraguai e na América Latina. Em 1982 foi expulso do Paraguai a mando do ditador Stroessner. 312
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MENSAGEIRO DO HUMANO E MEDIADOR DA SABEDORIA
"Wer den Dichter will verstehen
Muss in Dichters Lande gehen"
"Aquele que quiser entender o poeta
deve ir à terra do poeta" (Goethe).
Publicado no mês de março de 2002, O Trovão entre as Páginas. Diálogos entre Augusto Roa Bastos e Alejandro Maciel (El Trueno entre las Páginas. Diálogos entre Augusto Roa Bastos y Alejandro Maciel) é um precioso documento por várias razões. Há aí uma conversa entre dois interlocutores excepcionais: Roa Bastos, criador de uma obra que é um marco na literatura paraguaia, e Alejandro Maciel, amigo e secretário do escritor, conhecedor entusiasta de sua obra. Maciel é psiquiatra e de vez em quando lança um olhar médico e (psico)analítico sobre o mundo e a obra de seu interlocutor, quando então se diverte em provocar seu amigo. À medida que a conversa progride, o leitor é levado a descobrir a vida de Roa Bastos. Esse livro é um precioso documento. A conversa entre Bastos e Maciel, que prossegue mudando de assunto a cada instante, atravessa épocas, lugares e temas diferentes. Toca em diversas questões sobre o mundo e a história, sobre a América Latina, em particular o Paraguai, sobre a vida e a literatura, sobre as épocas de tormento que o escritor atravessou, sobre a Europa e sua cultura, sobre a mundialização e a literatura universal, sobre o romance e a poesia, sobre o Século de Ouro espanhol e sobre um sem-fim de acontecimentos. Essas entrevistas nos concernem. Eles introduzem no universo singular de um escritor – que é uma das grandes testemunhas e criadores do século XX –, e somente a ele, um mundo habitado por mil narrativas.
Sua vida foi um aprendizado da dor, mas também uma lição de apego a seu país natal. Não é um patriotismo forçado. O que Augusto Roa Bastos nos comunica em matéria de pátrias reais ou imaginárias é o seguinte: não podemos jamais negociar a escolha do nosso lugar de nascimento. Trazemos conosco a fatalidade do lugar de onde viemos ao mundo. Nossa pátria nos cola na pele. Ela nos acompanha onde quer que estejamos. É isso que nos ensina esse livro.
Augusto Roa Bastos viveu mudando de espaços, atravessando corajosamente o tempo de sua infância, de sua adolescência, da idade adulta e da velhice. Criou para si uma filosofia da resistência às forças das ditaduras e dos totalitarismos. Praticou e cultivou a compreensão do outro. Se esse livro nos conta dialogicamente a história da vida de Roa Bastos, nos ensina também que, em princípio, nos é permitido escolher o lugar de nossa ou de nossas residências. Mesmo em circunstâncias críticas e de constrangimento imediato e excessivo, quando de um golpe de Estado ou de um golpe militar que leva ao poder uma nova equipe de "governantes", pode-se fugir da pátria ingrata e se estabelecer num outro país consciente e livremente escolhido. Mas, infelizmente, mesmo essa convicção de que a escolha do país do exílio nos é livremente concedida se relativiza e mostra o potencial de toda espécie de sujeição. Lembremo-nos de Trótski e suas errâncias antes de se estabelecer no México, o lugar definitivo de sua vida e o lugar escolhido por Stálin para seu assassinato.
Sabe-se muito bem hoje que a compreensão da história do século XX passa pela explicação da topologia dos totalitarismos. Basta dar um giro de nosso olhar sobre o mapa do mundo, do continente europeu ao continente latino-americano e asiático, para constatar onde e de que maneira os totalitarismos plantaram suas bandeiras. O Paraguai, infelizmente, é um dos países vergonhosamente ilustrados.
É nesse contexto histórico, planetário e político que se inscreve a vida de Augusto Roa Bastos. Os constrangimentos históricos, políticos, econômicos, sociais e culturais que moldaram sua personalidade o levaram ao exílio. O mais longo exílio
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para Roa Bastos foi em terra argentina. Felizmente o escritor não precisou mudar de idioma. Seus numerosos amigos o acolheram muito bem. Mesmo que sua vida de exilado não tenha sido a das mais fáceis, como a vida dos argentinos sob a ditadura, Augusto Roa Bastos fala da Argentina com apego e com amor.
Este livro, Trovão entre as Páginas, possui um estatuto polivalente. É um documento histórico, uma história pessoal e uma aventura intelectual e criadora. Nele, Roa Bastos conta sua vida longa, intensa, política e humanamente engajada. O leitor descobre a personalidade atraente de um escritor que de maneira exemplar carrega em si a fatalidade do lugar de seu nascimento. Augusto Roa Bastos fala de sua vida rica de fatos e gestos políticos, intelectuais e criadores. Fala de sua família e de seus exílios sem que seu discurso torne-se confessional ou autobiográfico. Tampouco é um romanesco familiar. É um discurso meio autonarrativo, meio auto-irônico.
A obra admirável e fascinante, poderosa e fiel à sua origem, ao Paraguai, encontra nesse livro seu melhor comentador.
Augusto Roa Bastos, "campesino" e orgulhoso disso, intelectual requintado e judiciosamente crítico ou admirador dos outros, grande erudito, analista notável do texto literário (leiam suas análises dos sonetos de Quevedo, Gongora ou Lope de Vega), conhecedor incomparável da literatura universal, torna-se pelas suas palavras e por suas respostas um mensageiro do humano e um mediador da sabedoria.
A ERRÂNCIA DOS BLOCOS
HUMANOS
"Não era uma vida, era um caos" (H. Broch, O Tentador).
A melhor via para entrar in medias res seria provavelmente a analogia que a escrita de Roa Bastos faz chegar ao espírito entre a tonalidade de seus escritos, seu pano de fundo, sombrios e noturnos, e a pintura de Goya. Certamente, também em Roa Bastos (em Eu, o Supremo, em A Vigília do Almirante ou em O Fiscal) existem cenas e perspectivas narrativas que podem evocar essas pinturas de Goya, que representam de maneira realista cenas reais, a corte e as famílias de tais ou tais reis, de tais ou tais ditadores. Contudo, o que parece se constituir numa analogia ontológica e fundadora de uma visão comum do mundo é a pintura de Goya em que reina a noite. É sobre seu fundo impenetrável que aparecem figuras humanas, olhares que se lançam tristes e rancorosos em direção a um espaço desconhecido, espaço de um teatro repetitivo do mundo cuja focalização central é a morte ou, o que dá no mesmo, a vida cruelmente distribuída entre humanos sem esperança. Essa vida é uma cerimônia sombria de sua própria reprodução.
"O Baldio" (El Baldío) expressa com uma maestria paradigmática essa escrita da sombra. El Baldío é a "terra gasta", terreno vago, o território do lixo, espaço do excremento. É um pequeno texto reconhecido como uma "parábola brilhante e circular da vida indestrutível". Isso se passa numa imensa noite em que tudo foi eclipsado, exceto os humanos que, embora tivessem sido comidos pela obscuridade ("comidos por la obscuridad"), aí gesticulam, se mexem, se deslocam sem uma finalidade definida. Os humanos vivem a despeito de uma pressão letal do meio ambiente. Vivem, pois a vida é indestrutível. Seus rostos são dificilmente decifráveis. Suas formas se deixam adivinhar. São silhuetas vagamente humanas, os dois corpos absorvidos por suas próprias sombras. O odor pútrido, a terra é um depósito de lixo, ela está recoberta de detritos e de objetos rejeitados de outros lugares e ali depositados. Uma criança, uma pequena forma humana se debate entre as folhas de um jornal. Um homem (um "filho do homem") a toma em seus braços… "Seu gesto inábil e descuidado, o gesto de alguém que não sabe o que faz, mas que não pode deixar de fazê-lo." Um adulto sem nome salva uma criança sem nome.REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 314
O estatuto do humano em Roa Bastos se funde ao reconhecimento do fatalismo de estar aí mesmo. Esse estatuto está inseparavelmente ligado à topografia adversa do espaço que o humano percorre e onde organiza sua morada incerta, provisória, potencial, um lugar de exílio e de descentramento. É uma máquina alienante e matéria incessantemente adversa e inóspita. Nos breves relatos que se constituem em espécies de desfiles permanentes de humanos anônimos, a voz narrativa transmite, por uma grande economia da matéria narrada, aquilo que é essencial. O mundo visualizado de maneira aleatória pelas figuras anônimas ou mal nomeadas. Isso se passa em uma atmosfera bárbara. A prática da barbárie, própria da América Latina, é reiterativa. Ela devora o sonho de uma liberdade libertadora. A massa de bárbaros conta sua inferioridade. Chega-se, então, a uma relativização da própria idéia de barbárie. Esta se deixa integrar ao ethos social latino-americano e inverte os conteúdos pejorativos da oposição interpolar civilização/barbárie que, de disjuntiva, se transforma em conjuntiva.
ÀS TOMADAS DA BARBÁRIE
NO DESTINO PARAGUAIO:
A POLISSEMIA TRANSGRESSIVA DA FIGURA DE JOSÉ GASPAR RODRIGUEZ DE FRANCIA
O poema "Esperando os Bárbaros" de Constantin Kavafis, um dos textos mais estranhos da poesia moderna, trata-se de um estado e de uma sociedade que esperam os bárbaros, mas eles não chegam. É uma pena, diz o poeta, os "bárbaros teriam sido uma solução".
Os bárbaros já estão na América Latina. Deve-se tomá-los por uma componente inegável da vida que matou todas as alteridades. A oposição entre barbárie e civilização atravessa histórica, simbólica e semanticamente todos os pensamentos críticos e as atividades intelectuais e artísticas dos latino-americanos. E é também nessa oposição, negativamente reguladora da história da América Latina, que se inscreve o empreendimento criador de Roas Bastos, de que Eu, o Supremo é inegavelmente o ápice. Vê-se aí como o esforço criativo do escritor toca, antes de tudo, na recriação da figura histórica de José Gaspar Rodriguez de Francia. Embora a oposição entre a civilização e a barbárie traga uma interpolaridade semântica positiva vs. negativa, podemos constatar que no romance de Roa Bastos essa interpolaridade cede lugar a uma opacidade semântica, dá lugar a uma oscilação do sentido e faz do ditador paraguaio um agente romanesco e histórico polivalente, às vezes humano e inumano, civilizado e bárbaro, cruel e patético, ditador e democrata.
E como observa, com razão, Sharon Keefe Ugalde: "No romance, o representante da civilização e da barbárie é a mesma pessoa, José Gaspar Rodriguez de Francia. A criação de uma personagem que una os dois componentes divergentes desemboca num novo modelo de indicadores. À oposição polar substitui-se um mosaico de qualidades admiráveis e detestáveis, uma multiplicidade de dualidades" (1).
Por essa inversão ou mesmo por essa simetrização e multiplicação de conteúdos, o procedimento romanesco de Roa Bastos opera a restituição de José Gaspar Rodriguez de Francia a uma verdade histórica. Diplomata e um forte negociador que trabalhou pela independência do Paraguai e pela proclamação da República paraguaia, dr. Francia "reside" também na memória coletiva dos paraguaios como "ditador perpétuo" cujas bestialidade e crueldade são iguais à sua cultura política e às suas preferências de leitura, próximas de Jean-Jacques Rousseau.
Os historiadores notam com certo interesse o que se produziu após a morte do ditador. Eis os fatos que refletem e corroboram o sentimento de ambivalência dos paraguaios em relação ao ditador:
1 S. K. Ugalde, "La Reestructuración de la Dictomia Latinoamericana Civilización-Barbarie em las Obras de Roa Bastos", in Las Voces del Karai: Estudios sobre Roa Bastos, ed. Fernando Burgos, Madrid, Edelsa, 1988, p.212.REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 315
"O povo se dividiu em dois grupos: uns lamentavam seu desaparecimento, os outros foram às ruas para execrar sua memória. Os funerais foram solenes, mas nenhum padre paraguaio quis pronunciar a oração fúnebre. Foi o padre Manuel Antonio Perez de Córdoba (Argentina) que o fez. Depois, as mãos vingadoras destruíram o túmulo que havia sido erguido para conservar seus restos e que foram em seguida jogados no rio Paraguai" (2).
A história e a personalidade de José Gaspar Rodriguez de Francia se inserem numa dialética romanesca que Roa Bastos parece construir e propulsar entre as três imagens da história e três discursos sobre a história tal como Reinhart Koselleck os entende e os problematiza: "uma história que registra, uma história que desenvolve e uma história que reescreve" (3)
O ROMANCE DE UM SABER COMPLEXO E A FLUTUAÇÃO DO INDIZÍVEL
A complexidade do romance de Roa Bastos aflora de uma vontade de conciliar uma nova redação da história com seu desenvolvimento. José Gaspar Rodriguez de Francia é um alvo movente do autor que ao longo da história emprega os diferentes meios de expressão colocados a serviço de um saber que só pode ser complexo. Enumeremos sem ser exaustivos: o compilador que relativiza a posição autoral do autor, a construção do arquivista, um alter ego do compilador, os anacronismos, a veemência e o paroxismo dos registros, o metarromanesco produzido como instrumento para pensar o romanesco em suas imperfeições convencionais. Desde então o modelo romanesco produzido por Roa Bastos funde-se em uma síntese dos discursos que o precederam na ordem evolutiva do gênero. O escritor paraguaio parece retomar por sua conta o projeto do romance "poli-histótrico" e "gnosiológico" de Broch
2 Efraim Cardozo, Breve Historia del Paraguay.
3 Ver M. Werner, "Préface", in R. Koselleck, L’Expérience de l’Histoire, Paris, Gallimard, Seuil, Coll. "Hautes Études", 1997, pp.12-13. REVISTA USP, São Paulo, n.67, p. 310-316, setembro/novembro 2005 316
diante da apresentação enunciativa de um polivalência remete a um mosaico de signos em que também se aloja o "compilador" ("Vielschichtigkeit" – poliestratificação) e o postulado bakhtiniano de um dialogismo como princípio criador. Contudo, Roa Bastos situa-se numa multivocalidade dos agentes romanescos, enunciando seus pontos de vista sobre uma polifonia de vozes dos personagens-ideólogos, no sentido que Bakhtin dá a esse termo na sua teorização dos romances de Dostoievski. E o narrador, se houver um narrador neste Eu, o Supremo, não é "um evocador murmurante do pretérito" segundo a formulação dada por Thomas Mann (A Montanha Mágica) do problema da criação romanesca. O pretérito apaga-se imediato da vida e de um real que por sua fazendo o papel de narrador.
Roa Bastos integra a seu modelo estruturas discursivas que se prestam a diferentes finalidades cognitivas e que se encontram na base de sua busca do saber. Essas finalidades são sobretudo o projeto de um romance anti-histórico, oposto à historiografia oficial. Roa Bastos multiplica os focos reflexivos do romance que sustentam o sistema de duplos (exemplo: ele/eu; Supremo pai/Supremo ditador; escrita/leitura; Supremo/Patinio; a palavra cadavérica/a palavra humana). É sobre esse sistema que repousa a perspectiva semântica do romance e o encaminhamento do sentido constantemente in statu nascendi.
O romance em "compilação" permanente evolui em nível de frases-rajadas, afirmações peremptórias e paradoxais, jogos provocantes. O texto do Supremo é subentendido por uma espécie de deslocamento do observável e do memorial. Eles se desagregam em fractais que não podem mais sustentar a narração na medida em que esse imenso projeto de história, posto e transposto racional e aleatoriamente, está em busca de uma catarse que não se encontra. De fato, se faz atravessado pelos eixos variáveis e instáveis de comunicação, cuja dinâmica desloca a cena narrativa para um lugar imaginário, para essa "outra cena" em que deveria se dar o parricídio final do qual o justiceiro e parte interessada seria o povo paraguaio.
Os desafios do romance parecem crescer à medida que o leitor vai abordando esse magma de fluxos indomáveis. Nessa ordem do discurso, nem ordenado, nem totalmente domado, surge a questão da independência do Paraguai que, graças a uma estratégia do Supremo, uma província argentina torna-se um estado independente, malgrado a avidez de seus vizinhos. Seria, então, antes de tudo, Eu, o Supremo, um romance histórico na sua pós-historicidade? De fato, o romance de Roa Bastos é levado por tantos fantasmas que suporta com força seu status dificilmente definível, suas fantasmagorias que podem ser comparadas a uma permanência da noite de Walpurgis.
Milagros Ezquerro constata com toda razão: "Yo el Supremo não é nem uma história romanceada, nem um romance histórico, mas uma dessacralização da História como Lugar-da-verdade" – Lieu-de-la-vérité (4).
Chega-se, então, à "Nota Final do Compilador" que afirma: "[…] o compilador […] declara, tomando os termos de um autor contemporâneo, que a história contida nessas Notas se reduz ao fato de que a história que aqui devia ser contada, não o foi".
Quem é esse autor contemporâneo? É Robert Musil, que dessa forma resume L’Homme sans Qualités (Aus einem Notiz-buch, 1932) no momento em que um jornalista lhe pergunta o que está escrevendo atualmente. Por que essa "história que devia aqui ser contada não o foi"? Musil dá uma resposta a essa pergunta no capítulo 122 de L’Homme sans Qualités. Para Ulrich, que num certo nível é o alter ego do autor, o mundo tornou-se complicado por demais e por isso mesmo "inenarrável". Os dois paradoxos, o de Musil e o de Roa Bastos, se tocam. Seus romances são magníficos fracassos narrativos. Suas histórias deixaram de se exprimir através de um relato linear, coerente, bem narrado. Se uma hermenêutica do incognoscível existisse no campo do romanesco moderno, ela nos diria por que nessas duas arquiteturas do romance, tão complexas e tão bem resolvidas, existe aquilo que Broch chama de "flutuação do indizível" (O Tentador).
4 M. Ezquerro,"Função Narrativa e Ideológica", in L’Idéologique dans lê Texte (Textes Hispaniques), Ed. Université de Toulouse, Le Mirail, 1978, p.104.

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