quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

OS PESCADORES (Raul Brandão)

«Quando regresso do mar, venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa».

O fascínio de Raul Brandão pela luz e pelas cores!

Esta maneira de entender o mundo dos pescadores de há 100 anos, fez-me sonhar com o meu avô Manuel, pescador algarvio, que veio para Lisboa cerca de 1920. Que vida aquela! Que dureza e que comunhão entre essas pessoas simples!

«E ainda essa Foz se reduz cada vez mais na minha alma a um cantinho - a meia dúzia de casas e de tipos que conheci em pequeno, e que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte. O mundo que não existe é o meu verdadeiro mundo».

As reminiscências da infância ligada a uma família de pescadores.

«Só tendo a morte quase certa é que o Poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. Desde que se mete à terra, o Poveiro modifica-se: perde em agilidade e equilíbrio, hesita, balouça-se, não sabe onde há-de pôr os pés».

Este estilo de vida tão primitivo, tão ligado à essência das coisas, tão precário, tão arriscado, que torna as pessoas ultra-supersticiosas.

«Roupas a secar, interiores que são pocilgas, casebres com uma porta e uma janela, e alguns só com uma porta e um postigo aberto na porta».

Às vezes ganhava-se mais dinheiro, mas sempre o risco de se ficar sem nada, incluindo a própria vida. Um espírito tremendo de solidariedade, comunista, sem a conotação política de agora.

«Se eu fosse pintor , passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar».

Palheiros de Mira: «Como vive esta gente? Vive com simplicidade nos palheiros, casa ideal para pescadores ou para um velho filósofo como eu...(...) Quando chegam a velhos e não podem trabalhar, como não há um simulacro de cooperativa e a lei do seguro os não abrange, lá se socorrem uns aos outros como podem. A miséria é quase desconhecida neste pequeno povo de mais de duzentos fogos e de cerca de mil habitantes».

«Corre-se ao salva-vidas. Vida ou morte? Todas ajoelham com os braços atirados para o céu - e a Rata continua impassível como o destino; seu olhos fixos não se despegam daquele espectáculo tremendo».

As Berlengas (1919): «De Inverno nenhum barco atraca às Berlengas. Só e Deus no mais belo sítio da costa portuguesa! (...) - Que beleza, han?!... (...) - Que beleza o quê? (...) isto?! - e ri-se. - O vento e o mar! Sempre o vento e o mar! (...) Eu não sou um faroleiro - sou um náufrago».



"Os Pescadores", 1923, um retrato poético e sensível dos pescadores e da costa portuguesa, de Caminha a Sagres.

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